Pense no rosto de Sean Penn. Ele é disforme, linhas salientes, aparentemente mal-cuidado. Se o colocarmos perto do Brad Pitt, temos uma comparação desleal para os olhos humanos. É expressão versus perfeição. Pois, se nós preferimos a perfeição, não se pode dizer o mesmo das câmeras de cinema. Perto de uma lente, um piscar de olhos de Sean Penn é infinitamente mais relevante do que um close no Brad Pitt debulhado em lágrimas. Não que o Brad seja ruim – longe disso.
Sim, eu estou tentando em vão explicar esse conceito com palavras, porque é uma coisa de ver e sentir. Assim, resolvi fazer uma pequena lista dessa gente que pode até não ser bela e jamais fazer o papel do mocinho clássico, mas que tem uma vantagem inexplicável: a cara de cinema.
Jackie Earle Haley
Baixinho, careca, sardento, orelhudo, branquelo e frágil, não seria fácil arranjar um papel “normal”. Foi preciso viver o pedófilo de Pecados Íntimos para que Haley adquirisse certo status em Hollywood. Aos 48 anos, ele acaba de interpretar o personagem mais interessante de Watchmen, o mascarado Rorschach. Também vai ser o novo Freddy Krueger. Como este rosto ficou escondido por tanto tempo?
Imperdível em: Pecados Íntimos.
Tilda Swinton
Primeiro, ela é gélida. Depois, fica aquela impressão de androginia. Não haveria ninguém melhor para viver o dúbio Anjo Gabriel em Constantine. Uma mulher que com sua expressão dura beira a masculinidade, mas nunca ultrapassa essa linha. Por essa “aparência glacial”, como ela mesmo gosta de se definir, é que os diretores a preferem para papéis de vilãs e donas insensíveis. Ajuda o fato de ela ser britânica também.
Imperdível em : Conduta de Risco.
Steve Buscemi
O primeiro sentimento que Buscemi desperta na maioria dos seus papéis é o de pena, até porque seus personagens geralmente são uma melancolia sem fim. Mesmo quando ri, parece que esconde uma lágrima interna. Desse jeito, ele acaba sempre sendo simpático, mesmo quando faz um vilão. As comédias de humor negro também são um prato cheio para este rosto. Não é à toa que acaba sendo preferência de diretores com os Irmãos Coen e Quentin Tarantino, especialistas em caras de cinema.
Imperdível em: Fargo.
Paul Dano
Para não pensarem que para se ter cara de cinema é preciso ser de meia-idade, temos aqui um dos mais jovens representantes da categoria. Ele ainda não tem rugas ou marcas de expressão, mas o que dizer de seu rosto? Não encontro uma forma geométrica que se pareça com ele. Essa assimetria atrai personagens problemáticos, geralmente revoltados e com uma aparente pouca intimidade com as mulheres. Vide o assustador pastor de Sangue Negro.
Imperdível em: Pequena Miss Sunshine
William H. Macy
Nosso loser favorito, é outro que com o olhar ingênuo nos desperta compaixão. Representa o típico cara que, apesar da melhor das intenções, parece que está fadado a se dar mal em tudo. Se colocar um óculos, ficar melhor ainda. É sempre o personagem comedido, que leva desaforo pra casa e dificilmente explode em alguma situação. Assim como quase todos os atores com cara de cinema, também já concorreu ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, por Fargo.
Imperdível em: Magnólia
Obs.: Colaboração do senhorito Edson Gandolfi.